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DE TARDES E NOITES

 

Há muito tempo eu não sentava à soleira da casa pra procurar desenhos de nuvens pelo céu, havia esquecido que as casas têm soleiras e que o céu continua no mesmo lugar.

O banco de pedra da minha casa nova tem me proporcionado este prazer: chegar um pouco mais cedo do trabalho, sentar-me sem nenhum compromisso com horários, e ficar observando o entardecer cair, sem pressa, cheio de matizes mágicos – vermelhos que se azulam pelo céu, azuis que se perdem ao anoitecer, mil cores colorindo a morte do dia.

Tantas coisas vão se perdendo sem que nós percebamos. Nunca mais vi vaga-lumes, os faróis luminosos da cidade, os néons, os postes florescentes, mataram a sutileza dos pequenos lampiões voadores do sertão.

Noite dessas, encontrei o amor e ele me disse que nunca os viu. Mas logo o amor, de tão avançada idade, nunca vira um vaga-lume na sua existência?

O homem e os sentimentos nascidos e criados na cidade grande deixaram de ver muita coisa escondida nos confins da natureza que se perdem entre as luzes da cena urbana.

A soleira, por exemplo, estranhara o meu gesto, estranhara meus olhos quando estes fitaram o horizonte de nem tarde e nem anoitecer, como procurasse algum objeto voador não identificado, algum extra-terrestre, alguma alma penada.

Nada, apenas o simples desejo de ver surgir a primeira estrela, como tantas vezes fiz na meninice.

A noite também tem me perdido como amante, tenho adormecido, como se estivesse ficando velho e rabugento, como não tivesse mais tempo pra estrelas e luares.

Mas hei de retomar aos meus hábitos de quase ontem.

Os entardeceres me elevam a alma e a noite, mulher que me atraiçoa, mas seduz, carrega um pouco da minha alma nos seus braços.

Já retornei ao cair da tarde, cabe a noite me esperar um pouco mais.



Escrito por Caio César Muniz às 13h09
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