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Comentário a respeito de Belchior...

Marly Quelho Atanes

(São Paulo/SP)

 

Madrugada véspera de feriadão (vou trabalhar, comme il faut..),  velho fone  de ouvido a postos, voltei décadas ouvindo o CD duplo “Sem Limite”, coletânea do Belchior.

Instantaneamente rejuvenescida, embasbacada e feliz: se eu não escrever agora seria muito injusto comigo e talvez com toda uma geração: ele é demais!

Como ele pode ser tão absurdamente contemporâneo, moderno ad eternum?

Quem perdeu o bonde da história após os anos sessenta, ou quem não a revisitou - por necessidade intelectual ou mera curiosidade-talvez jamais me compreenda.

Quase impossível não se identificar com esta mescla de inadequação e inconformismo, em meio ao bom-humor non sense e auto-referente na sua condição de “nordestino” (subentenda-se aqui brasileiro), preciso feito uma lâmina nas suas letras, também perfeitas nas metáforas e inúmeras referências, sem nunca me parecer excessivo.

E pasmem: ele também antecipou em décadas o desencanto blasé que se seguiria ao compulsório pseudo-engajamento intelectual que existia na época, tudo isto sem parecer reacionário ou politicamente incorreto, que coisa!

Quanto às pausas melódico-respiratórias para falar de amor... Ninguém jamais ousou repeti-lo, seja em intensidade ou qualidade, sem antes soar vulgar e ferir ouvidos, em vez de acariciá-los como ele faz tão bem...

Várias músicas estão em arranjos inéditos gravados ao vivo.

Um violão maravilhoso faz contraponto: raras vezes dissonante e áspero, para alguns acordes regionais “nordestinos” ou até eventualmente meio folk; e então, com maior freqüência, em solos dedilhados mais-que-perfeitos, melhorando ainda mais o que pareceria quase impossível...

 

(CONTINUA ABAIXO...)



Escrito por Caio César Muniz às 12h57
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Meu irmão Silvio diz que é o Sérgio Zurawski quem está ao violão: volte já pro Brasil!

Ouvir tudo isto é uma overdose de emoção, é resgate puro e em estado bruto, e não requer nenhuma lapidação...

Dá para lavar a alma, e ficar pensando onde existiria outra estrela “de primeira grandeza” como considero o Belchior.

Pois que quero continuar-mesmo que desesperadamente-falando português, e não tenho mais “apenas 25 anos de América do Sul”, e me vejo a repetir o nome da comunidade da Internet: só o Belchior me entende!

Improvável e sempre imperdoável nesta Terra Brasilis, pródiga em talentos musicais é a péssima memória no trato e reconhecimento aos mesmos, por ser também terra dos mega-marqueteiros-oportunistas do mercado fonográfico, que a cada estação inventam mais e mais coisas descartáveis, nada que requisite meio neurônio capenga pra ser consumido na velocidade da luz: lixo, lixo e mais lixo.

Tão ruim ou pior que isso é ficar incensando os de sempre, perpetuando o culto a quem de fato só se repete, sem originalidade, genialidade ou muito menos novidade nenhuma...

 Na minha visão de fã incondicional, porém nunca alienada, eu teorizo e profetizo: se fosse outro país, estariam todos regravando aos montões suas canções, como velhos “standards” de Cole Porter, revendo partituras, fazendo teses musicais-sociológicas sobre seu trabalho, song-books, etc. e tal.

Você sempre merecerá um tapetão estendido por onde passar!

Estarei sempre guardando um beijo pra você nas dobras do meu velho blusão de couro, perto do eterno e jovem coração selvagem...

 



Escrito por Caio César Muniz às 12h41
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